São Damião de Molokai

 

O segredo da vida do Padre Damião esconde-se no mesmo segredo de Jesus:

“Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo!”

Canonização 11/10/2009

 

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PADRE DAMIÃO DE MOLOKAI, SERVIDOR DA HUMANIDADE

 

Corria o ano 1873. Um veleiro sulcava as águas do Pacífico e se detinha frente à Ilha de Molokai. Do veleiro desceu um jovem missionário da Congregação dos Sagrados Corações, Damião de Veuster.

Molokai era a ilha dos leprosos. Perseguidos, eram deportados para lá, à força, todos os afetados pela lepra do Arquipélago de Havaí. Era como um podredouro humano, um inferno vivente em perpétua desesperação.

Aquele missionário, jovem e forte, chegou à Molokai, a “ilha maldita”.

Alegre, otimista, foi adentrando-se nela. De repente deixou de sorrir.

Era um extenso grupo de casebres miseráveis, o povoado onde moravam os leprosos.

Impressionado, Padre Damião parou uns instantes, se refez e penetrou nele.

O trabalho extraordinário daquele homem que levara uma mensagem de paz e de amor, pouco a pouco, começou a dar bons frutos.

Molokai foi deixando de ser a “ilha maldita”. O ódio, o desespero, o materialismo e a libertinagem, foram cedendo à verdade.

A vida do “Leproso de Cristo”, foi um vivo testemunho de amor encarnado nos irmãos e levado até suas últimas conseqüências.

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Ilha de Molokai

 

QUEM ERA PADRE DAMIÃO

José de Veuster, o futuro missionário Padre Damião, nasceu em Tremelo, na Bélgica, aos 3 de janeiro de 1840, numa numerosa família de agricultores comerciantes.

Quando seu irmão mais velho, Panfílio, entrou na Congregação dos Sagrados Corações no momento em que o pai

destinava-o a ser seu sucessor nos negócios da família, ele também decide tornar-se religioso, e começa seu noviciado na cidade de Lovaina, no mesmo convento de seu irmão, no início de 1859. E aí toma o nome religioso de Damião.

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Em 1863 seu irmão partiria para a Missão nas Ilhas de Havaí. Mas adoeceu quando tudo já estava preparado para a viagem.

Damião conseguiu então licença do Superior Geral para tomar o lugar do irmão. E aos 19 de março de 1864 desembarcou em Honolulu, onde em seguida, aos 21 de maio, foi ordenado sacerdote. Sem mais tardar entrega-se de corpo e alma à árdua vida de missionário, nos povoados de Havaí, a maior ilha do arquipélago.

Naquele tempo, para impedir a propagação da lepra (mal de Hansen), o governo havaiano resolveu deportar para a vizinha ilha de Molokai a todas as pessoas portadoras dessa doença, até então incurável. Toda a Missão católica se compadeceu da sorte daqueles infelizes. O Bispo, Dom Maigret, falou sobre isso com seus sacerdotes. Mas não queria obrigar a nenhum deles, em nome da obediência, a ir para lá, pois sabia que uma tal ordem seria igual a uma condenação à morte.

Quatro missionários dos Sagrados Corações se ofereceram: eles visitariam alternadamente a ilha, para dar assistência aos leprosos em sua miséria e abandono. O primeiro a partir foi o Pe. Damião. Era o dia 10 de maio 1873. A pedido seu e dos próprios leprosos, ele ficou definitivamente em Molokai.

Contagiado, também ele pela doença, morreu no dia 15 de abril de 1889. Seus restos mortais foram repatriados em 1936, e depositados na cripta da igreja paróquia de Santo Antônio, ministrada pela Congregação dos Sagrados Corações, em Lovaina.

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Damião é conhecido em todo o mundo como aquele que voluntariamente foi partilhar a vida com os leprosos deportados na península de Kalaupapa, em Molokai.

Tanto a sua partida para a chamada “Ilha Maldita”, em 1873, como a notícia da terrível doença, em 1885 e a de sua morte, em 1889, causaram profunda impressão nos seus contemporâneos, qualquer que fosse a sua convicção religiosa.

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Seu túmulo na Ilha de Molokai

 

Após a morte foi considerado por todo o mundo como um modelo e um herói da caridade. Ele se identificou de tal modo com os leprosos a ponto de usar a expressão “nós, os leprosos” até mesmo antes de contrair a doença. Por isso continua inspirando a milhares de crentes e não crentes, que querem imitá-lo e tentam descobrir a fonte de seu heroísmo.

Foi Beatificado pelo Papa João Paulo II, aos 05 de junho de 1995.

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O SEGREDO DA VIDA DE UM “SANTO”:
“AMAR ATÉ O EXTREMO!”

Podemos afirmar que Padre Damião penetrou “no coração do impossível”.

A expressão no coração nos dá a idéia de mergulhar profundamente numa realidade identificando-se com os que vivem essa realidade; quer dizer: encarnar-se nela. E dizer do impossível equivale a falar dessas situações extremas, limite, que fazem afundar os seres humanos na rejeição e exclusão mais absolutas, convertendo-os nos mais “marginalizados” da face da terra.

Cento e poucos anos atrás, no arquipélago do Havaí, a “situação limite – extrema –” era a lepra (a hanseníase), doença horrível, repugnante e sem cura naquele então. Os leprosos eram autênticos excluídos da sociedade. Perseguidos e caçados eram confinados no extremo de uma das ilhas do arquipélago: a Ilha de Molokai. Eram os mais excluídos e marginalizados da época; sua situação era desesperadora e sem saída, um inferno.

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Afirmar, portanto, que o nosso novo santo, Padre Damião, penetrou “no coração do impossível” é querer dizer bem alto que, Padre Damião, foi ao encontro central dessa situação limite, desse impossível que era a realidade da Ilha de Molokai.

Decidido, entrou nela com a força de seu caráter belga-flamenco e a naturalidade de quem vive intensamente a fé cristã. Além do mais, Padre Damião, tentava viver a “situação impossível” de seus irmãos leprosos, não desde fora ou tomando precauções e distanciamentos…, mas desde dentro, desde o coração, metido e comprometido com aquela realidade cruel. Com alma, vida e coração, este sacerdote-religioso dos Sagrados Corações, mergulhou na dor daqueles sofredores, assumindo sua causa e entregando-se a eles de tal maneira que tornou-se, além de missionário, pai, irmão, enfermeiro, coveiro e defensor convicto, um leproso a mais na Ilha, chegando a identificar-se de tal maneira que gostava dizer: “Nós, os leprosos…”

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Estátua de Damião e ao fundo a Igreja (Molokai)

Gandi, grande admirador do Padre Damião e diante do tamanho exemplo de sua vida, diria mais tarde que valeria a pena investigar em quais fontes o missionário católico teria bebido a força de sua generosidade; perguntando-se ainda, qual teria sido o segredo de sua vida.

Nestes últimos anos tem-se falado muito de “opção preferencial pelos pobres”. Falado por muitos e desejado não por poucos, graças a Deus! Porém, as coisas correm o risco de ficarem só por aí, sem maior comprometimento, pois ainda permanecemos tremendamente afastados e distantes do coração da pobreza, da exclusão e da marginalização de irmãos nossos… Tal vez por medo e resistências.. O que levou Padre Damião de Veuster a vencer qualquer medo e superar qualquer resistência, foi sua constante intimidade com o Coração de Cristo, na Eucaristia, nos longos momentos de “adoração” ao Santíssimo Sacramento, e vivendo conseqüentemente sua consagração batismal e religiosa, e sua entrega de pastor: “No amor não existe temor; o perfeito amor lança fora o temor”. (1Jo 4,18).

Padre Damião de Molokai, foi canonizado (declarado santo) pela Igreja. Podemos responder à inquietação de Gandi: o segredo da vida do Padre Damião esconde-se no mesmo segredo de Jesus: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo”!

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CANONIZAÇÃO DO PADRE DAMIÃO, APÓSTOLO DOS LEPROSOS
O CAMINHO DA CRUZ DE DAMIÃO

Quem quiser compreender a vida e a obra missionária do Padre Damião de Veuster, apóstolo dos leprosos da Ilha de Molokai, obrigatoriamente e antes de mais nada, deverá contemplar seu caminho de cruz.

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Muito tem se falado do Padre Damião como o missionário empreendedor e dinâmico, generoso, que se entregou até o fim; porém, esquecemos de indagar o mínimo necessário para saber qual a energia interior que o impulsionava a tamanha entrega e caridade…

Destacamos freqüentemente sua total identificação com o irmão sofredor – que lhe fará dizer “nós, os leprosos…”, chegando ele mesmo a sofrer da mesma doença; porém, pouco falamos dessa progressiva identificação interior que acontece nele, ao buscar como modelo o Mestre Jesus, animando-o a percorrer o verdadeiro caminho de fazer-se “próximo” e entregar a vida.

“Se alguém quiser vir após mim… tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8,34), disse Jesus.

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Quando lemos as cartas de Damião, descobrimos seu caminho espiritual rumo à cruz, identificando-se com o Senhor Jesus. Eis alguns trechos:

Escrevendo à sua família: “Procuro carregar minha cruz com alegria, como nosso Senhor Jesus Cristo”. Numa carta à sua irmã religiosa Maria Gabriela, diz: “Espero, graças às orações de muitos, que nosso Senhor Jesus Cristo, me dê as forças necessárias para carregar minha cruz trás ele, até nosso especial Gólgota de Kalawao (lugar da Ilha de Molokai onde se encontrava o povoado dos enfermos)… porque nosso divino Salvador, chamou-me a percorrer um caminho longo e difícil”. E, ainda, ao seu irmão Padre Panfílio (também religioso dos SSCC), confia- lhe: “…aceitei esta doença (a hanseníase = lepra) como a minha cruz especial; procuro carregá-la como Simão Cirene, seguindo as pegadas de nosso divino Mestre. Ajuda-me com as tuas orações, para que eu obtenha a força da perseverança até chegar ao cimo do calvário”.

Faltando-lhe dois meses para morrer, envia esta nota a seu querido amigo, o pintor Eduard Clifford, que perpetuara seu retrato numa tela: “Procuro escalar devagar meu caminho da cruz e espero encontrar-me em breve no cimo de meu Gólgota”.

E mais uma a seu irmão Panfílio: “Atrevo-me a dizer como São Paulo: Eu estou morto e minha vida está escondida em Deus”.

Estes são alguns exemplos tomados das cartas de Damião. Porém, seu itinerário de aproximação e identificação com o Cristo, é o que lhe permitiu escrever uma das páginas mais bonitas da atividade missionária e apostólica de seu tempo.

À semelhança do Mestre Jesus, “o caminho da Cruz” foi o caminho do Padre Damião. É o caminho de todos nós, homens e mulheres, que buscamos com fidelidade a vontade de nosso Deus!

A canonização do Padre Damião, deu-se em Roma, a 11 de outubro de 2009.

(todos os artigos aqui publicados são de autoria do Pe. Vicente Hernández, ss.cc)